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As políticas públicas lá em casa…

Segunda-feira, 16 de Fevereiro, 2009

Há uns dias chegou o Magalhães a nossa casa. O Pedro mal dormiu na noite anterior, com a excitação. E se para ele os computadores não são novidade, pus-me a pensar no que terão sentido os meninos e as meninas que não tiveram até agora semelhante privilégio… Mas pensei também naquilo que neste período de implementação podia ter corrido melhor e evitado a “revolta” sentida pela professora por “ter tido que preencher todas as fichas para o Magalhães” (!), o cepticismo generalizado na escola sobre a forma como será possível integrá-lo nas actividades curriculares, ou ainda a falta de (circulação de?) informação que fomos sentindo.  

É um bocado desencorajante assistir a semelhante recepção a um dos mais formidáveis instrumentos de democratização no acesso às tecnologias de informação e comunicação das últimas décadas. Sobretudo quando recebemos registos como este, do Uruguai, em que (descontada a propaganda oficial) nos chegamos a emocionar. Acredito que a situação mudará rapidamente. O Magalhães encarregar-se-á disso. Mais difícil será mudar a cabeça daqueles pais que, por estarem entre as famílias de maiores rendimentos e, como tal, terem usufruído desta medida ao subsidiadíssimo preço máximo de 50€, reagiram ao meu incontido entusiasmo com um cínico “e porque é que havemos de andar a pagar pelos pobres? Depois vão vender o Magalhães à Feira da Ladra”. Ora bolas! Este é mesmo o maior desafio que temos pela frente.

Mind the gap

Terça-feira, 25 de Novembro, 2008

Não vem necessariamente a propósito do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres que hoje se comemora, nem do previsível maior impacto da crise sobre a situação económica das mulheres relativamente à dos homens, mas poderia vir: o Global Gender Gap Report 2008 produzido pelo World Economic Forum e recentemente apresentado, vem chamar a atenção para as desigualdades entre homens e mulheres em 130 países do mundo. Este índice, que mede as disparidades de género no acesso a recursos e oportunidades em cada país (sem considerar os níveis efectivos de recursos ou oportunidades), inclui indicadores relativos à saúde e sobrevivência, educação, participação e oportunidades económicas e empoderamento político.

No topo do ranking, sem surpresas, os suspeitos do costume: Noruega, Finlândia, Suécia, Islândia. Portugal ocupa a 39.ª posição, tendo descido de 32.ª em 2006 e 37.ª em 2007, não tanto devido a uma redução da classificação (que em rigor sobe ligeiramente de 0,692 para 0,705), mas devido à entrada de novos países e à movimentação de outros para o topo da lista. Como pode ver-se aqui, as razões para esta sisuda classificação remetem sobretudo para desigualdades no plano económico e político.

A boa notícia do relatório é a de que tem vindo a registar-se uma redução global das desigualdades, sobretudo nos planos do acesso à saúde e educação; o mesmo não acontece, porém, com a participação socioeconómica, os níveis salariais e a participação nos processos de decisão, onde as desigualdades são ainda enormes.

O cuidado a ter com a interpretação deste ranking é, claro, o facto de não levar em linha de conta os níveis de recursos: sermos todos muito pobres, igualmente privados de empregos ou de participação nos níveis de decisão política e económica, faz-nos mais iguais mas não mais felizes, mais livres ou mais dignos. Contudo, há boas razões para pensar que a redução das desigualdades de género é cúmplice (condição necessária mas não suficiente) do desenvolvimento. Para os menos convictos da importância da redução do gap, as palavras de Laura Tyson, uma das autoras do relatório podem ajudar: “Our work shows a strong correlation between competitiveness and the gender gap scores. While this does not imply causality, the possible theoretical underpinnings of this link are clear: countries that do not fully capitalize effectively on one-half of their human resources run the risk of undermining their competitive potential. We hope to highlight the economic incentive behind empowering women, in addition to promoting equality as a basic human right”.