O minotauro popular europeu
Quinta-feira, 7 de Maio, 2009
Embora tenha sido ontem aprovado pelo Senado da República Checa, o Tratado de Lisboa continua a sua longa epopeia no labirinto dos povos europeus. Mesmo que os Irlandeses aceitem aprová-lo, em segundo referendo, haverá nova batalha pela frente e não me refiro à Polónia, cujo Presidente já disse só assinar o decreto de ratificação após decisão irlandesa.
Há que conceder valor jurÃdico à s concessões feitas à Irlanda. Umas das soluções poderá ser incluÃ-las no Tratado de Adesão da Croácia. Mas para os que pensavam que o alargamento à Croácia seria business-as-usual, nada menos certo. Outra nuvem negra paira sobre o Tratado e também ela com ameaça de referendo. A Eslovénia resolveu fazer da solução de uma contenda com a Croácia, relativa à delimitação de fronteiras territoriais e marÃtimas, condição para a aceitação daquele PaÃs no clube. O acordo que sair da arbitragem internacional e o próprio Tratado de adesão poderão ser sujeitos a referendo, por iniciativa parlamentar ou popular, vão já avisando os Eslovenos. Eis a Europa uma vez mais refém dos humores dos seus povos.
A verdade é que, a 27, 28, 30, a probabilidade de os Tratados serem rejeitados por referendo num EM será cada vez maior. Não seria altura, em campanha europeia, de começar a delinear uma solução para evitar este género de psico-dramas democráticos?
Há questões óbvias que evitamos por respeito democrático, mas será que a democracia não significa também respeito mútuo entre maiorias e minorias? Por que razão o NÃO ao Tratado constitucional em França e na Holanda teria mais valor do que o SIM em Espanha e no Luxemburgo, quando ainda por cima se sabia na altura que as razões para o sim de muitos eram mais europeias do que as razões para o não de outros?
A escolha do instrumento de ratificação – parlamentar ou referendário – cabe aos Estados-membros. Mas no seio da União, importa que se tenham também em conta maiorias de Estados e de cidadãos. Como podem cidadãos de um Estado, qualquer que seja a sua dimensão e peso populacional, bloquear o processo de integração? Não estamos nós, por esta via, a reforçar os discursos anti-europeÃstas primários e os votos de sanção aos Governos nacionais que, ainda por cima, não julgam a Europa um tema suficientemente importante para justificar a sua demissão após a perda de um referendo? Será a Europa a várias velocidades a única solução para o dilema?
Existem várias propostas para responder ao ‘dilema referendário’, que vão desde permitir a entrada em vigor de um Tratado sem ser necessária a sua ratificação por todos os EMs, prevendo para o efeito uma super-maioria qualificada, às que obrigariam os Governos que organizam referendos a assumir plenamente as suas responsabilidades.
A hipótese da super-maioria foi prevista tanto pelos convencionalistas de Filadélfia, como pelo projecto apresentado pela Comissão europeia – ‘Penélope’, como contributo para a Convenção europeia. Acalmem-se os opositores de um Estado federal, tal hipótese está prevista pelo Direito internacional, nomeadamente pela Convenção de Viena sobre direito dos Tratados.
Uma outra possibilidade é responsabilizar os Governos que negociaram e assinaram o Tratado, dando assim o seu acordo ao texto. Quando, por força das Constituições nacionais, se exige um referendo, parece claro que esses Governos se devem responsabilizar pela campanha a favor dele. Mas, como ficou patente no caso irlandês, nem sempre acontece. E por isso haveria que ir mais longe e impor a esse Governo a necessidade de concluir o processo de ratificação num prazo estipulado e de realizar um segundo referendo em caso de resultado negativo, agora com uma questão muito mais directa: querem ou não os cidadãos desse Estado pertencer à União europeia?
Nenhuma destas ideias é nova, o que haveria de novo seria o espÃrito com que se assume a pertença à UE, sem meias-palavras, sem falsos purismos democráticos, escondidos por detrás dos direitos das minorias.
Enquanto não se colocarem estas questões, bem podemos continuar a rezar para que não se façam mais referendos que nunca se sabe o que esses doidos povos europeus nos podem estar a tentar dizer, enquanto lhes delineamos o caminho sem lhes explicar o rumo, mas que por certo é para o bem deles.
Muitos são os candidatos que pelo continente fora querem falar de Europa na campanha para as eleições europeias. Muitos são os temas que partilhamos com outros povos europeus, mesmo quando são de cariz eminentemente nacional. A campanha é um bom pretexto para a pedagogia, embora o seu local de eleição devesse ser a escola. Também é verdade que os temas institucionais pouco ou nada interessam às pessoas. Mas se quisermos que as eleições europeias deixem de ser eleições secundárias, venha o candidato capaz de pôr questões válidas à escala da UE, para que apareçam soluções europeias a problemas que se irão pôr cada vez com maior intensidade. O referendo e como lidar com as suas consequências podia ser um deles.
Ou será que, numa altura em que a prevenção é palavra-chave a propósito de tudo, a UE não é capaz de criar um fio de Ariadne que nos salve deste minotauro popular europeu?
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