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Imaginação política

Sexta-feira, 28 de Novembro, 2008

Uma das razões pelas quais os partidos socialistas, trabalhistas e sociais-democratas mantiveram vocação maioritária, pelo menos em muitos países europeus, é a sua capacidade de se reinventarem ciclicamente, adaptando a sua matriz progressista e reformista às mudanças hisóricas.

É provável que, à escala global, estejamos num dos pontos de viragem histórica que implicam a renovação de agendas e a redefinição de prioridades, dada a previsível duração, extensão e intensidade da crise económica global que nasceu da crise financeira americana.

Em Portugal, por outro lado, esta crise vem coincidir com um período de estagnação que ameaçava já a possibilidade de o país seguir o caminho de convergência europeia que iniciou nos anos oitenta.

Acresce que o essencial da plataforma política com que o PS se apresenta aos portugueses resulta ainda do trabalho realizado antes das eleições legislativas de 1995, nomeadamente no âmbito dos Estados Gerais para uma Nova Maioria.

Os Estados Gerais, vistos à distância, foram um notável exercício de abertura política do PS, que lhe permitiu receber contributos de várias sensibilidades da família da esquerda democática, com uma abrangência difícil de repetir.

Poderá objectar-se que essa vontade de síntese foi também paralisante e resultou em demasiado centrismo, mas, ainda que essa objecção tenha fundamento, ele encontrar-se-à nas decisões políticas tomadas sobre a reflexão havida e não na natureza do exercício.

O programa dos Estados Gerais, contudo, aproxima-se de estar concluido, naquilo em que se mantém actual. Sustento que não precisa de novas recauchutagens. Pelo contrário, penso, é toda a plataforma política com que o PS se apresenta aos portugueses que precisa de ser reanalisada e actualizada encontrando, na boa tradição social-democrata, novas soluções para os novos desafios.

Gostava de acreditar que isso se pode fazer com um contributo decisivo no interior do PS, quase por geração espontânea, mas não vislumbro nenhuma dinâmica nesse sentido. É certo que os estatutos dizem que é competência do Congresso aprovar o “programa de legislatura”, mas não é essa a prática e nada faz prever que o passe a ser.

Assim, há o risco de que a renovação programática do PS careça hoje de protagonista. O Gabinete de Estudos, que era a sua sede nos anos 70 e 80 julgo que não foi reconstituido desde a posse do actual Secretário-Geral e não tem produção conhecida. As Novas Fronteiras têm sido interessantes espaços de realização de iniciativas, mas não de labor continuado de produção política.

Se estivessemos num período de mera gestão da conjuntura política, esta questão seria secundária, mas estou convecido que, se o PS quiser marcar a agenda política da próxima geração, estando no poder na presente crise, tam que ser capaz de superar as suas rotinas e, para isso, é necessário que se organize de modo a imaginar novas soluções. Sem prejuízo do interesse de todos os debates, para que mil flores florescendo não acabem em nada, é necessário que o partido se disponha a acolher as ideias que germine.

Hoje, no PS, talvez sejam precisos políticos imaginativos, mas, mais que tudo, é precisa uma lógica de poder partidário que acolha os resultados de tal imaginação, sem o que debater ideias se arrisca a ser uma participação em interessantes jogos florais.