Em dia de Congresso do PCP, publicamos o texto que Joaquim Jorge Veiguinha nos enviou com a sua análise sobre as Teses.
«De 29 de Novembro a 1 de Dezembro de 2008 realizar-se-á o XVIII Congresso do PCP. Entretanto, foram publicadas em separata no jornal Avante! de 25 de Setembro, as teses deste congresso que, após aprovação do Comité Central, irão ser colocadas à discussão dos militantes do partido.
«A ideia central das teses é transformar o Partido Socialista em inimigo principal, num alvo a abater, pelo que deve considerar-se neste momento que o PCP, apesar da sua retórica radicalista, constitui um dos principais aliados das forças de direita, não hesitando sequer, em determinados momentos, em utilizar os seus tradicionais argumentos. Exemplo disso é a crítica das reformas da justiça do PS, acusadas de terem conduzido a “uma maior impunidade do crime organizado e dos seus autores e pior justiça para a generalidade dos cidadãos” (p .46). Isto revela o nível a que o PCP chegou: perante o necessário controlo do regime de prisão preventiva, bem como a tentativa de reduzir os efeitos nefastos que certas decisões judiciais erradas poderão ter sobre a dignidade de cidadãos que delas são vítimas, o PCP não hesita em repetir os argumentos da direita e extrema-direita sobre a “impunidade” do crime organizado” e armar-se em defensor da “soberania do poder judicial”. Esta defesa não deixa de ser ridícula, já que o PCP considera como baluartes da resistência à nova “ordem imperialista” e faróis da construção de uma sociedade socialista, precisamente um conjunto de ditaduras de partido único em que o poder judicial não é efectivamente soberano: Cuba, China, Vietname, Laos e, imagine-se, R.D. da Coreia (p.14).
«O PCP não hesita em retomar as teses estalinistas dos anos 30 do século passado que conotavam os partidos socialistas com os partidos “social-fascistas” e foram responsáveis pela conquista do poder político na Alemanha pelo Partido Nacional-Socialista. Certamente que o PCP adapta esta tese às novas “realidades”, mas, no fundo, o sentido é o mesmo. De facto, considera que a “rendição da social-democracia ao neoliberalismo” é um dos fenómenos que se liga “a expressões de ressurgimento do fascismo e ao acesso de forças neofascistas ao poder em vários países, nomeadamente na Europa” (p. 10). Esta análise delirante, para além de esquecer-se de explicitar quais são concretamente os países em que ressurge o fascismo, tende a colocar no mesmo plano, como o fazia Estaline nos anos 30 do século passado, partidos socialistas e organizações fascistas, já que os primeiros pela sua “rendição ao neoliberalismo” preparam a ascensão das segundas. Esta concepção revela que o PCP vive num mundo surreal, que se transformou num partido que, em termos europeus e mundiais, é uma relíquia histórica do sectarismo estalinista, completamente incapaz de analisar a situação concreta do capitalismo actual, de detectar as suas grandes tendências e, por conseguinte, de propor alternativas políticas.
«Outra das características do PCP é o seu sectarismo. Apesar de Jerónimo de Sousa ter feito em princípios de Outubro um apelo aos “socialistas descontentes” e ao Bloco de Esquerda para formarem uma “frente comum” com o PCP contra o Governo do PS, as teses apontam precisamente para uma estratégia oposta. Assim, o PCP considera que, apesar dos “valiosos processos de resistência, afirmação e recuperação de Partidos Comunistas (…) continuam a desenvolver-se tendências revisionistas e reformistas envolvendo processos de degenerescência, autoliquidação e diluição em frentismos de «esquerda»” (p. 15). Estas patéticas considerações, mostram mais uma vez que o PCP, para além de viver num mundo surreal - quais os exemplos de “recuperação de Partidos Comunistas”, que não têm cessado de perder simpatizantes e militantes em todas as partes do mundo em que não são poder? -, apenas está disposto a aderir a “frentes comuns” se puder controlá-las, como aconteceu em diversas situações históricas. O PCP só reconhece “compagnons de route”, pois está continuamente a auto-intitular-se de “vanguarda” da classe operária e dos trabalhadores portugueses. Aos que não pertencem à gloriosa vanguarda só lhes resta um caminho: seguir as directrizes dos seus líderes iluminados pelo mito da infalibilidade revolucionária. Tal como o PS, o Bloco de Esquerda não se integra neste mito, já que “caracteriza-se pelo seu carácter social-democratizante, disfarçado por um verbalismo e radicalismo esquerdizante, herdado das forças que lhe estiveram na origem, e por uma atitude determinada pelo anti-comunismo” (p. 70).
«Relativamente à União Europeia, o PCP considera-a como um dos pólos da “tríade imperialista” – os outros dois são os maléficos Estados Unidos, companheiros de Belzebu, já sabíamos, e o Japão. Para além de se recusar a analisar as diferenças entre os três pólos da Tríade, o PCP transforma a UE no principal alvo dos seus ataques arcaico-retóricos ao pronunciar-se contra a construção de uma Europa Federal e as soluções supranacionais de partilha de soberania que põem em causa “o desenvolvimento patriótico e internacionalista consagrado na Constituição da República Portuguesa” (p. 24). Nestas questões a cegueira do PCP é dupla: em primeiro lugar, porque na actual fase de mundialização capitalista apenas a integração em entidades supranacionais com políticas sociais redistributivas, capazes de contraporem à ofensiva do capital global soluções que combinem o respeito pelas liberdades políticas e a promoção da justiça social, o que implica necessariamente a partilha da soberania política, são alternativas progressistas; em segundo lugar porque o PCP, com a sua obsessão contra a “supranacionalidade” da UE esqueceu-se especificamente de denunciar a directiva que alarga a jornada máxima de trabalho das 48 para as 60 horas, bem como a directiva que impõe aos imigrantes ilegais um período de detenção de 18 meses. Estes esquecimentos revelam bem que, ao contrário do que apregoa, o PCP, apesar da habitual frase plástica sobre “uma Europa de cooperação de Estados e povos”(p. 24), não está interessado em contribuir para a construção de uma Europa mais justa e solidária, apostando, sob a capa da retórica patrioteirista, no isolamento e albanização do país, solução atávica que revela, mais uma vez, um conservadorismo nacionalista que, porém, não se cansa de fazer apelo ao internacionalismo de um “movimento comunista” que apenas existe na imaginação surreal dos seus dirigentes.
«Nestas teses importa ainda referir um tema importantes que revela o atavismo do PCP: as pretensas causas da dissolução da URSS. Para além da usual retórica sobre o “abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores”, o PCP sintetiza-as, na já nossa conhecida “penetração em profundidade da ideologia social-democrata” que assim se torna no supremo bode expiatório da falência de sociedades que pouco tinham de socialista. De facto, uma sociedade socialista deve possuir uma democracia mais profunda e alargada do que uma sociedade capitalista e basear-se não na propriedade estatizada dos meios de produção, que se revelou economicamente ineficaz, mas na propriedade cooperativa controlada pelos trabalhadores associados e libertados da tutela de um Partido-Estado que tudo decide por eles, pois constitui a sua “vanguarda” política. A avaliar pela entrevista aos autores do livro significativamente intitulado “O socialismo traído” - os norte-americanos Roger Keeran e Thomas Keenny (Edições Avante!, 2008), entrevistados pelo jornal Avante! de 25 de Setembro, as “grandes conquistas do socialismo” foram alcançadas nos anos 30 do século passado, ou seja, precisamente nos anos dos processos contra os dirigentes bolcheviques, das execuções em massa e da construção dos gulagues (ver pp. 15-18 do Avante! de 25 de Setembro). Se este é o “rico património histórico” de que o PCP se reclama, então o seu modelo de socialismo é incompatível com a democracia.»
Joaquim Jorge Veiguinha