O regresso de Keynes?
Quarta-feira, 31 de Dezembro, 2008O antigo primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli dizia que não há melhor educação do que a adversidade. A crise actual pode ser uma oportunidade para relançar as bases do futuro se soubermos aprender e encontrar as ideias correctas. Não é por acaso que num ano que teve um primeiro semestre em que o alto preço do petróleo e das commodities em geral, incluindo as alimentares, levou alguns a desenterrar as teorias de Malthus e a prever todo o tipo de catástrofes por falta de recursos, termine agora com a intervenção crescente dos governos na economia e o regresso das teorias de outro economista desterrado Keynes. De facto 2008 é o ano de todos os cisnes negros, arrasou muita da sabedoria convencional e triturou muitas ideias feitas e lugares comuns. Do ponto de vista económico a primeira metade do ano foi dominada pela luta contra a inflação alimentada pelos altos preços das commodities e a segunda metade é dominada pela crise financeira e o perigo da queda acentuada da procura mundial que pode gerar um período (mais ou menos longo) de deflação. Ora isto suscita as seguintes questões:
1. A primeira é percebermos o porquê do regresso de Keynes que foi banido pela ortodoxia económica dominante nas últimas décadas. Esta ortodoxia baseava-se na defesa feroz dos mercados livres, da desregulação, da privatização e do “Estado mínimo.”Com o alastramento da crise do crédito em 2008 ficou claro que a politica monetária já não é suficiente para estimular a economia e a prova são as taxas de juro perto do 0% nos EUA e Japão. Por outro lado a falta de confiança gerada nos mercados financeiros faz com que os bancos não emprestem dinheiro uns aos outros e às empresas que precisam. Keynes defendeu todo um programa para estimular a economia nestas circunstâncias com base no aumento da despesa pública (financiada pela dívida) e na redução dos impostos. Deixar o mercado funcionar livremente hoje, como querem os fundamentalistas, na esperança vã de vir a renascer um capitalismo purificado, levaria ao colapso brutal da economia global com pobreza ainda maior e consequências imprevisíveis. Os que de forma demagógica criticam as intervenções hoje dos governos na economia e em especial no sector financeiro ignoram que este sector é o cerne das economias modernas e se ele colapsa tudo o resto fica paralisado. A crise global seria ainda mais profunda se os governos adoptassem a politica laissez faire, laissez passer. O que devemos discutir não é se os governos devem intervir (não há alternativa racional) mas como intervir e com que critérios para assegurar que essa intervenção é eficaz.
2. A segunda questão é que o debate intelectual gigantesco que hoje se trava ao nível das soluções para a crise é um eco do debate dos anos 30 do século passado entre os economistas da chamada escola austríaca com von Mises e Hayek á cabeça e os socialistas. Os primeiros tinham uma visão baseada na ideia da liberdade individual e na acção dos indivíduos enquanto tal que buscando o seu bem-estar garantiriam a emergência de um sistema económico estável. Todo o seu programa se baseava nesta visão que como sabemos hoje tem sérias limitações. Os socialistas, pelo seu lado, defendiam a substituição do capitalismo pelo socialismo argumentando que o capitalismo laissez faire só podia conduzir à crise e à instabilidade. Sabemos hoje que estavam certos no diagnóstico mas profundamente errados na solução. E foi aqui que a intervenção de Keynes foi paradigmática com a sua qualidade notável de sintetizar na sua proposta o melhor das posições contrárias. Keynes defendia a economia de mercado e a liberdade individual que são indispensáveis para fazerem funcionar a economia e gerar riqueza mas ao mesmo tempo recusou a teoria do “Estado Mínimo” que era incompatível com a social-democracia e o funcionamento de economias urbanas.
3. O que se está a passar hoje é que a cimeira de Novembro do G-20 consagrou as teorias keynesianas para fazer face à grave crise económica e financeira pondo claramente a tónica na intervenção dos governos, em mais sector público e mais regulação. É no entanto essencial entender que a teoria keynesiana tem as suas limitações e não é uma panaceia. Ela funcionou muito bem na luta para estimular a economia na Grande Depressão depois de 1929 mas falhou nos anos 70 do século passado. Não é suficiente jogar dinheiro para cima dos problemas (atirado de helicóptero como na metáfora de Milton Friedman) para resolver a situação. Não basta aumentar a despesa pública financiada com a dívida para sairmos da crise. É preciso todo um programa estratégico de intervenção, bem desenhado, com mecanismos eficazes e que seja capaz de usar o dinheiro dos contribuintes de forma sábia para mudar a situação e transformar a crise em oportunidade, aprendendo sempre com os erros do passado. E aí ainda há muito a fazer.






