Nós e os Outros (VIII) - Distopias
Segunda-feira, 30 de Março, 2009As viagens grandes têm esta grande vantagem de nos pôr a milhas da nossa “aldeia”, criando o distanciamento necessário para esquecer a espuma dos dias.
Se a viagem se faz para outras paragens, de longitudes distantes, onde a globalização também existe, porventura até mais agressivamente, mas apesar de tudo com um MADE IN significativo, de contornos culturais mais explícitos, o nosso NÓS fica a ver-se por um canudo. E o que se pode ver à distância de 7 mil milhas? Este ver é memorativo, muito reflexivo e, portanto, de elevada subjectividade, pois então. Mas alimenta-se, aqui e ali, de conversas com os OUTROS sobre NÓS, de uma intersubjectividade que considero sempre relevante e particularmente interessante.
E o que se vê de Taipé sobre o mais ocidental país europeu? Uma sociedade massacrada pela voragem das crises, da financeira à de mentalidades, apostada em remediar os rombos, sem apólice para um casco novo. O barco mete água, a crise financeira rasgou as fissuras que há muito a crise do modelo de sociedade estabeleceu, pondo em evidência a crise social grave que vivemos. Dir-se-á, e bem, que a doença não é (só) nacional. Mas as nossas dores sentem-se cá dentro, e outras pandemias na história europeia recente demonstraram que as patologias Portuguesas têm, em geral, uma prevalência muito acentuada.
Há que refundar um modelo de sociedade que por agora se releva distópico, maligno, avesso a mudanças profundas e consequentes. Há que procurar um projecto de sociedade mobilizador e não reverbativo, que se alimente de princípios fortes e insusceptível de transgressões perigosas, derivas que não permitem seguir por bom caminho.
Os projectos reformadores (mais ou menos gradualistas) têm que ser mais esclarecedores sobre o caminho a seguir. As convergências, em democracia, fazem-se pelos imperativos da contabilidade parlamentar, mas a riqueza democrática está nas diferenças que os projectos político-partidários têm que assumir, revelando-se como são ao eleitor. O socialismo democrático, por exemplo, não deve querer convergir programaticamente com o conservadorismo mascarado de social-democracia. Menos ainda com os liberais da direita Portuguesa, geneticamente reaccionários quanto à mudança e apologistas, até à hecatombe neo-liberal, do livre mercado e da desregulação. Lembram-se?
À (dita) sua esquerda, a escolástica do PCP não ensinou ao socialismo democrático, primeiro, a ser mais democrata, e agora não lhe oferece uma alternativa criadora. O moralismo Bloquista esgotou-se com o aceno que os seus dirigentes procuraram fazer ao eleitorado marginalizado, criando um estilo crítico assimétrico, basófio!
O socialismo democrático aparece turvo no canudo, quando olhamos para ele do outro lado do Mundo. Torna-se impreciso, não se percebem os seus contornos. De perto, conseguimos ver ainda melhor os seus defeitos, os excessos em que caíu, nomeadamente quando o marketing político mimético - que fez enriquecer os Paixões e os Athaydes - o personalizou em excesso. Até parece que os socialistas se tornaram os fãs de uma banda rock, incapazes de ver o desafinanço de algumas políticas, e já não reconhecendo o ritmo e as harmonias que fizeram desse socialismo democrático uma marca de referência na sociedade portuguesa.
De lá longe, onde maleitas de idêntica natureza também se fazem sentir, sentimos uma enorme necessidade de dizer que podemos ser mais justos para nós mesmos, mas que para tal precisamos de criar utopias, e renovar a nossa ideologia.
Será assim tão difícil mudar?
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