No ano em que se comemoram os 150 anos da publicação da obra revolucionária de Charles Darwin, a origem das Espécies, eis-nos perante a extraordinária e inédita situação de existirem em Portugal Homens políticos que contrariam o mais nuclear postulado da teoria darwinista.
É verdade: diferentemente do que defendeu Darwin, pode haver sobrevivência (política) sem evolução. Discorramos sobre um dos mais notórios perfis, o célebre PSL (Portugalensis Sobreviventis in Lisbona).
Maliciosamente, o engenho político de PSL permitiu-lhe esperar o ano das comemorações daquela obra científica, acompanhadas por homenagens, um pouco por todo o Mundo, ao seu génio criador, um sábio abnegado e talhado para compreender o programa filogenético dos seres vivos, para desferir um golpe implacável na teoria da evolução. Já antes, PSL, em anos que haviam sido também evocativos de outros eventos, mostrara esta mesma obsessão anti-Darwin, mas talvez nunca de modo tão brutalmente chocante.
Dotado de uma intrigante resiliência, PSL sobrevive às maiores adversidades, a mais das vezes auto-infligidas (outra novidade comportamental de espantar qualquer um), investe na sua sobrevivência política com recurso a tabus, pequenas declarações sobre “nada”, em geral entrando e saindo de salas e gabinetes, sempre apressado, mas a sua sobrevivência resulta em boa parte da comiseração geral e apagões críticos dos seus pares. E tudo isto sem manifestar o mais pequeno sinal de evolução (nem de arrependimento). Absolutamente extraordinário! Não se lhe conhece doutrina nem projecto. Existe politicamente porque SIM, e está candidato a tudo porque EXISTE. O síndrome narcísico, de facto, não precisa de fundamentação, embora se explique, mas esperava-se um enquadramento, algo que nos permite perceber que PSL representa uma certa filosofia política para a cidade, qualquer coisa que não fosse APENAS ELE.
É importante insistir neste aspecto. Na competição pelos recursos do ecossistema, as espécies invadem, assimilam e eliminam as outras. PSL, ao contrário, sobrevoa o ecossistema, recolhe dele o essencial para prosseguir (nunca se sabe para onde, dado que em regra os planos de voo são abortados, não sendo concluídos), mas não permanece. Em ciclos irregulares, regressa de novo, recolhe uma vez mais, e zás! Ora estes voos rasantes são altamente perturbadores do ecossistema político porque deixam contaminações. Lembram-se daquelas que sufocaram a Câmara de Lisboa em termos financeiros por tantos anos?
PSL, habituado a fortes mudanças do clima político, com fases de glaciação partidária que quebrariam Hércules, e com outras fases de degelo propício a migrações para terrenos mais favoráveis, como muitos fazem, desenvolveu, por conseguinte, uma competência para sobreviver, sem se adaptar, mantendo a arma da desfaçatez com uma eficácia inegável e, porventura, insuperável. É verdade que PSL não é espécime único, percebendo-se que no habitat político Português existem alguns Outros, situados em todos os quadrantes desse mesmo habitat, sendo certo que de acordo com alguma análise comparada, não será difícil encontrar casos destes em toda a parte. Diz a literatura da especialidade ue a sua concentração é directamente proporcional aos índices de contaminação populista que podemos encontrar nesses mesmos habitats, sendo mais frequente que tais níveis de toxidade política se registem nas “américas latinas”, “áfricas”, digamos, em latitudes outras.
Instado a falar, PSL pouco diz, revelando que do seu instinto de sobrevivência emerge o silêncio como táctica, poupando energia para fases posteriores em que terá que falar mais, independentemente do pouco ou nada que venha a dizer.
Identificado no passado pelos “seus” como um enfant terrible, o tempo moldou-o para se tornar um terrible politique, sem ideologia que se lhe pegue, dissociado dos problemas locais e diários, procurando apenas convergir consigo próprio. Aparentemente, convive e suporta-se numa constelação de seres satelizados de si próprio, denominados santanetes, se foram do sexo feminnino, ou santanistas, no caso masculino. Podemos convencionar que se trata de um sub-sistema autónomo, de geometria variável, que pode, sob determinadas condições, alargar-se para fora do espectro do seu habitat natural, como seja o caso do CDS/PP - que neste contexto emerge como uma colónia que alimenta temporariamente PSL e o seu sub-sistema.
Cantado como menino guerreiro, ei-lo agora numa maioridade sem mácula, pensa ele e dizem muitos que assim é, esquecendo o penoso período da história recente em que este homem, como Mayor por duas ocasiões, e como Prime Minister numa outra, foi flagrante e perigosamente incompetente. Nada diremos sobre as fases dos períodos de 80 e 90, porque na história também há prescrição.
Dirá PSL, em seu abono, e uma vez mais com instinto de sobrevivência apurado, que fez um túnel que o protege da humilhação, mas não o resguardará de um juízo político em urna, que se espera implacável.
Dirá ainda PSL que não tem responsabilidades nas “trapalhadas”, e que lhe podem agradecer os projectos miríficos que a cidade não conhece.
Este político, que todos já (re)conhecemos, e de gingeira, prepara-se para ser cabeça de lista nas Autárquicas, e logo pela capital, a qual ele desprezou com arrufos de isolamento precoce… e muitos amuos.
Quem vos avisa vosso amigo é. Sejais tolerantes mas firmes nos arremeços que esse homem político vai organizar.
Estranhas formas de vida… sem auto-avaliação!
Já vai fazendo tempo para se perceber o anacronismo deste homem que quer ser (de novo) Presidente da Câmara.
Suspeito que isto não tem só que ver com Darwin. Tem, sobretudo, que ver connosco.