1. A CAUSA DAS COISAS
Aparentemente, algum bom senso tem vindo a dominar os comentadores televisivos, radiofónicos e da imprensa a propósito dos acontecimentos do Bairro da Bela Vista, em Setúbal.
É oportuna e bem-vinda a alusão dos comentadores a um quadro social mísero, ditado pela força intempestiva das políticas de realojamento massivo que as autarquias, com o apoio financeiro do Governo Central, promoveram nas décadas de 80, 90 e já nesta, por via de contratos-programa, quer se chamassem PIMP (na década de 80), PER (sobretudo na década de 90, já com extensões para esta década), ou qualquer outra coisa (na velha concepção da habitação segregada para desfavorecidos). É bem-vinda mas não chega, e por isso só aparentemente podemos reconhecer algum bom senso nessas peças de comentário. Falta bastante mais para que os cidadãos fiquem esclarecidos sobre as causas das coisas, sobre a ontogénese das pedradas e do fogo posto, que exprime uma descontinuidade social e cultural perigosa e que os corpos de bombeiros, ou as reuniões de final de tarde no Governo Civil não poderão combater.
A arrogância declarada dos protagonistas dos ilícitos a que vimos assistindo, e que merecem óbvia condenação social e criminal, arrogância no sentido do “quero posso e mando aqui no meu bairro”, foi precedida, faz tempo, pela arrogância imoral mas não ilícita do “quero, posso e mando aqui na minha terra”, protagonizada por quem entendeu construir bairros de exclusão sem atender ao interesse colectivo. São dois processos que não se podem dissociar. Este não justifica os «acontecimentos» nem desculpabiliza os seus autores. Pode, todavia, ajudar a explicá-los.
O facto relevante é que quando começámos a construir as Zonas J, os Pica-Paus Amarelos, as Musgueiras, as Quintas das Fontes, etc, etc, há muito que se sabia que estes aglomerados dificilmente se viriam a (re)conhecer como lugares urbanos, integrados nas malhas citadinas a que formalmente se ligam. Os exemplos de fora (EUA, França, Reino Unido, entre outros), já sobejamente conhecidos nesse tempo, teriam exigido outra sensibilidade política e outra responsabilidade pública aos decisores políticos e aos promotores autárquicos. A negligência política, a ignorância cultural e a bazófia dos técnicos (sobretudo dos urbanistas e engenheiros) foram factores decisivos para que os “territórios dissociados” tivessem proliferado nas metrópoles portuguesas.
O conhecimento a que me refiro nem tão-pouco era exclusivamente estrangeirado. O LNEC, por exemplo, produziu dezenas de estudos, para mais encomendados e pagos pelos dinheiros públicos, que sublinharam a importância de não fazer de conta de que existe uma equivalência entre a satisfação das exigências técnicas (entenda-se, entre a atribuição de um fogo a uma família) e a satisfação das necessidades sociais de bem-estar (dos realojados). E demonstrou, nomeadamente através de análises sociométricas aplicadas em larga escala às populações a realojar, que as redes sociais informais são decisivas para o equilíbrio social dessas comunidades.
Quem ler os trabalhos de Luís Soczka sobre a relevância do meio social e ambiental no desenvolvimento infantil; de Maria João Freitas, actual vogal do IHRU, sobre habitação e cidadania; de Marluci Menezes sobre o significado dos contextos fortemente desestruturados (como era o Casal Ventoso) na formação de uma identidade negativa; de Álvaro Pereira sobre a relevância da identidade étnica na formação dos pré-conceitos e equívocos em torno das políticas de realojamento; os trabalhos de José Gabriel Pereira Bastos sobre a transição heteronómica dos velhos para os novos bairros; o estudo de Luís Fernandes sobre os territórios psicotrópicos do Porto; enfim, quem se der ao trabalho de ler os resumos dos estudos de ecologia social urbana dos últimos 25 anos (não exclusivamente do LNEC, entenda-se), encontra neles as advertências para os problemas que os comentadores recém-chegados procuram analisar no prime time, mas também as recomendações práticas para os procurar evitar. Porém, nada que se opusesse ao desvario da “obra feita” seria bem-vindo, e recordo bem alguns dissabores a que fomos sujeitos sempre que algum parágrafo transpirava para fora dos muros das casas do conhecimento, captando o interesse dos media.
De resto, a história repetiu-se mais recentemente e a propósito do Estudo denominado Metrópoles Seguras - Bases para uma intervenção multissectorial nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto (Lisboa, 2007). Trata-se de um trabalho encomendado pelo Ministério da Administração Interna em 2006, que mobilizou uma equipa interministerial, coordenada pelo LNEC, que se dirigiu muito concretamente para a compreensão das chamadas zonas problemáticas, mas que nunca foi objecto de uma divulgação alargada, ou tão-só de uma apresentação pública. Há sempre alguém que entende ser desnecessário o conhecimento produzido, mesmo que outros o tenham encomendado, em nome do interesse público.
Quando os aparentemente esclarecidos comentadores, com o seu ar majestático, se referem à necessidade de estudar estas situações, e se degladiam nas apostas sobre o grau de contaminação das ocorrências, até pelo mimetismo com os casos grego e francês (que disparate!!!), apetece perguntar porque motivo não se parte para a discussão com a lição estudada? Não é o Código Penal que precisa de ser chumbado, como refere Paulo Portas, mas sim quem fala por falar, induzindo em erro, reforçando preconceitos, favorecendo, afinal, o discurso fácil e perdulário. Digo fácil porque é sempre mais difícil esclarecer quando se procura fazê-lo, ao invés de falar para preencher a “grelha”. Digo perdulário, porque esconde o esbanjamento de recursos e expectativas, porque se torna superficialista e branqueador das más práticas e dos maus juízos. Por exemplo, alguém ouviu nos últimos meses, e a propósito da Quinta da Fonte (Loures), da Bela Vista (Setúbal), ou de qualquer outro foco de turbulência local, falar do Programa Escolhas (I e II)? De como uma excelsa ideia se transformou numa repartição de subsídios a festas e acções pífias?
2. IR AO FUNDO DOS PROBLEMAS

Implosão do Complexo habitacional de Pruitt-Igoe
(St. Louis, Missouri), desenhado pelo arquitecto Minoru Yamasaki.
(foto de Bettman/Corbis)
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Como se escreveu e divulgou em Junho de 2008, no âmbito do VI Congresso Português de Sociologia, se estivéssemos alinhados pela teoria da associação diferencial de Sutherland (1939), diríamos mesmo que para além do contexto físico e da sua significação, haveria que não descurar o papel da organização social diferencial e do fechamento (ao mainstream cultural da sociedade) das áreas urbanas desfavorecidas na explicação da emergência e racionalidade sociológica do subculturalismo que o comportamento anti-social a que vimos assistindo comporta. Mais, Sutherland define-o como “normal”, em razão do modo de socialização (aprendizagem social) que gera essas condutas, tal qual como a “boa” socialização gera as “boas” condutas. Esta é a matriz teórica de Sutherland: os indivíduos associam-se a actividades anti-sociais porque aprendem e interiorizam padrões comportamentais dessa índole com mais frequência, duração, prioridade e intensidade do que o fazem com outros padrões normativos que a sociedade proporciona. Por conseguinte, não é incompatível que os delinquentes que se dediquem ao furto de carteiras nas imediações de um estádio de futebol, se emocionem minutos depois com a celebração colectiva do hino nacional, em total fusão parcial no Nós que poderá manifestar-se por estados de forte comunhão entre os presentes (salvaguardada a possibilidade de não se reconhecerem como vítima e agressor), efectuando os chamados consensos sociais relevantes.
A implosão massiva das zonas problemáticas (nas quais residem muitos delinquentes referenciados pelos sistema policial e penal), levando à movimentação (realojamento) dos seus moradores para novas urbanizações, não conduziria à resolução dos problemas sociais criminais existentes, mas simplesmente à sua transferência para novos lugares, nos quais se iria reproduzir a mesma subcultura ou associação diferencial. Neste aspecto, o insucesso e subsequente demolição do bairro social Pruitt-Igoe em St. Louis, projectado em 1951 e demolido em 1972, permanece como paradigmático do equívoco modernista que Yancey (1972), citado por Soczka (2005), refere: “Pruitt-Igoe representa no seu projecto arquitectónico um exemplo de uma política nacional de habitação cujo único objectivo é proporcionar casas baratas para famílias sem recursos, com desconhecimento ou menosprezo pelo desenvolvimento de uma comunidade e da sua vizinhança” (p. 117). A nossa interrogação consiste em perceber se o desastre social e urbanístico de Pruitt-Igoe foi suficientemente impressivo, como acredita Nathan Glazer, citado por Shea (2007) para que os urbanistas e os políticos das cidades tenham aprendido a lição, hipótese em que não acreditamos, ou se todos nós temos algo que se assemelhe a uma Pruitt-Igoe nas nossas cidades – o que nos parece bastante mais plausível, e se ilustra com alguma facilidade.
Com efeito, quando analisamos o elenco de bairros problemáticos na óptica policial, corroborada sobre vários aspectos pelas entidades públicas, privadas e do terceiro sector que operam nesses mesmos bairros, verificamos que boa parte deles são bairros de promoção habitacional pública (vulgo bairros de habitação social).
Ir ao fundo dos problemas é ter a coragem de reconhecer que a política de habitação social das últimas décadas não provou ser eficaz na óptica da inclusão social e da não discriminação. O que faltou foram políticas sociais de habitação, fortemente subsidiadas por medidas de discriminação positiva que favorecessem a criação de contextos menos degradados e menos degradantes.
Enquanto os caixotes arderem, enquanto as pedradas não cessarem, a orientação só pode ser uma: intervir policialmente para estancar. Depois, perceber como se poderá arrepiar caminho. Finalmente, mobilizar civicamente para que se impeça, legitimamente e pelo voto, quem fez disparates de concepção e promoção das Belas Vistas de os voltar a fazer. Basta de amadurismo político, de atrevimento incauto, de interesses próprios (políticos e partidários) em detrimento do interesse colectivo.
NUNCA MAIS.
pmachado60@gmail.com