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Arquivo do mês de Junho, 2009

Os manifestos dos “economistas”

Domingo, 28 de Junho, 2009

Vinte e oito personalidades (economistas, gestores, etc.) subscreveram um Apelo à Reavaliação dos grandes Investimentos Públicos (“manifesto dos 28”). Este documento teve uma larga leitura política na blogosfera e imprensa escrita.

            Sendo feito nesta altura pré-eleitoral, sobre decisões aparentemente da total responsabilidade deste governo, e subscrito largamente por economistas da área do PSD com raras e honrosas excepções credíveis mais à esquerda (importa referir aqui Silva Lopes e Daniel Bessa) é natural que tenha sido lido por muitos como um ataque pela direita ao governo. E, na realidade, esse foi um objectivo de alguns subscritores…

Mas será que o manifesto dos 28 serve o PSD?

É importante a desconstrução desse mito e mostrar que o manifesto dos 28 não pode nem deve servir para apoio ao PSD.

            O que esperaríamos de uma oposição responsável é que tivesse ao longo de 4 anos apresentado propostas alternativas ao país. Que tivesse um grupo de estudos (que não tem) que apresentasse ao longo do tempo o downsizing (que é necessário!) do programa rodoviário do país. Não ideias gerais e vagas mas propostas concretas que já deveriam estar em debate público há muito tempo.

            Alguns dos projectos que o governo socialista agora está a implementar foram apoiados por Ferreira Leite, como é o caso do TGV. O contexto actual é outro, é agora o discurso oficial do PSD. É obvio que a recessão e as expectativas de menor procura tornam inviáveis alguns projectos que o poderiam ser. O problema é que alguns já não faziam sentido mesmo antes da recessão. O PSD é pois, e deveria assumir isso, co-responsável nas decisões (o que obviamente não significa que algumas delas não devam ser re-equacionadas)

O PSD não fez o trabalho de casa e está agora a tentar cavalgar o descontentamento popular, nomeadamente em relação a políticas (ironia das ironias) de que foi o principal mentor, nomeadamente na avaliação em geral e dos professores em particular.

A retórica ideológica da suposta “esquerda” do PCP e do Bloco não se fez esperar. “É mais do mesmo de gente que só quer salvar uma política de direita” (Jerónimo de Sousa). “É uma espécie de Olimpo do bloco central, em que vão buscar uma série de ex-ministros todos eles de pouca fama” (Louçã). Os soundbytes utilizados incluem ainda “economistas neoliberais” “contra o investimento público”.

            Como terei ocasião de fundamentar em artigo no Jornal de Negócios da próxima  terça-feira 30 de Junho, a propósito do manifesto dos 28, se PCP e Bloco vierem a assumir responsabilidades governativas teríamos o paradoxo de “defensores do Estado” (gente de “esquerda”),  levarem o Estado à penúria…!

            Outra resposta política implícita ao manifesto dos 28 é o “manifesto dos 51 economistas e cientistas sociais”. Trata-se de um sub-grupo dos “ladrões de bicicletas”+ala “esquerda” do PS+Bloco+ independentes desta área.  

É surpreendentemente pobre e errática a argumentação, o que lastimo, vindo de algumas pessoas de quem tenho consideração e estima pessoal. A ênfase no emprego como prioridade das políticas públicas. De acordo! Dizer que o custo do desemprego (com taxa de  10%) é de 21.000M euros/ano (capacidade de produção desperdiçada e custos de protecção social), ou seja menos do que se gastaria com as grandes obras públicas nos próximos 15 anos, para além de altamente impreciso, é irrelevante. Ao fazê-lo está-se a sugerir que se poderia poupar com “pleno emprego” ?  Como a “taxa natural” de desemprego é de pelo menos 5% é necessário refazer os cálculos (pleno emprego como sabem os economistas não é 0%). Imprecisão: os “custos” de protecção social são redistribuição de rendimento, não tem nada a ver com o PIB real abaixo do PIB potencial derivado do desemprego.

Mesmo que os numeros estivessem correctos que se poderia concluir? Que vale a pena fazer investimentos públicos que têm rentabilidade nula ou negativa?

Outra coisa surpreendente do manifesto dos 51 é uma posição claramente europeísta de algumas pessoas que não são tidas como europeístas. “Propõe-se um vigoroso estímulo contracíclico, coordenado à escala europeia e global”. Ora como é sabido o Orçamento da União Europeia representa cerca de 1% do PIB dos países da União. Com um orçamento desta magnitude é impossível qualquer política orçamental expansionista na UE. Estão os autores a sugerir implicitamente um aumento do orçamento da UE. Mas financiado como? Com um novo imposto certamente. Mas estão dispostos a assumi-lo explicitamente? (Vital defendeu-o publicamente e todos, à esquerda e à direita, o criticaram…!)

            Aquilo que penso que o PS deveria fazer, como resposta aos “manifestos” não era o que provavelmente irá fazer: um terceiro manifesto.

            Era antes aproveitar o tempo que resta até á campanha para fazer o que o país espera que faça: aceitar com humildade que algumas das questões levantadas no manifesto dos 28 são pertinentes, nomeadamente propor algum downsizing no programa rodoviário nacional, e repensar os timings e prioridades do investimento público em relação aos objectivos de desenvolvimento do país.  

 

PS O artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso de 27 Junho é uma peça muito bem escrita. A ler.

  

Estratégias mediáticas

Sexta-feira, 26 de Junho, 2009

Este artigo de João Cardoso Rosas merece atenção a pelo menos dois títulos. O primeiro é o da certeira exposição que faz do mecanismo antidemocrático próprio da retórica política que reclama a exclusividade da verdade. Mas, não nos iludamos: já na última campanha presidencial o candidato vencedor foi o que defendeu a tese segundo a qual duas pessoas com a mesma informação forçosamente chegam à mesma conclusão. Esta alegada objectividade da política não é nova nem é fácil de rebater.

Isto porque, e aqui reside o segundo título de interesse do caso, o fito de associar uma candidata à verdade não é valorizar a verdade junto do eleitorado, mas sim valorizar a candidata. O título honroso de «verdadeira», de conotação moral, orna a candidata, sem consequência na acção política. Assim, quem se associa a esta retórica pode escandalizar-se com a próxima instrumentalização da TVI pelo governo, sem nada dizer sobre a anunciada instrumentalização já exercida sobre a TVI via a administração de Pina Moura, que tanta gritaria gerou apenas há um par de anos e que de lá para cá nos deu  esse exemplo de situacionismo (ou bom jornalismo?) que são os diálogos VPV-MMG.

Esta insistência na verdade para dissimular a irrealidade comprovada, aliás, ainda antes de repetida pela candidata foi enunciada no blog Abrupto. E não é caso único: o igualmente ruidoso manifesto de economistas, além de uma involuntária confissão de inutilidade dos próprios (quando não de irresponsabilidade de tantos deles), é apenas um dos muitos casos possíveis de degradação da política em nome de uma moral apenas simulada ou de um saber indemonstrado.

Conviria por isso, em vez de indignação, recordar os factos ao eleitorado. Em vez de desafios a que mostrem um programa (que não têm nem verdadeiramente querem), que se falasse do futuro relembrando as nossas iniciativas. Como muito bem se fez a respeito da lei sobre transparência e concentração dos media, chumbada sabe-se bem por quem.

Sovinice incorporated

Terça-feira, 23 de Junho, 2009

Quando o “Resto do Mundo” desencadeia uma política de promoção do investimento público para contrastar o desemprego galopante e a anemia da procura efectiva, um grupo de economistas portugueses decidiu não reconhecer o mundo e lançar um ataque pouco fundamentado contra esta forma de investimento. “Público” é uma palavra perturbadora que deve ser irradiada do vocabulário redutor que utilizam sempre que, apesar da sua ignorância relativamente a tudo o que diz respeito às relações entre economia e sociedade, as suas concepções sovinistas e frugalistas sobre o comportamento dos sujeitos económicos encontram uma oportunidade para dar livre curso às teses sobre as alegadas “reformas” de que o país necessita.

No seu manifesto afirmam que a “taxa de investimento da economia portuguesa é o dobro da taxa de poupança nacional”, acrescentando para complementar o argumento que o país tem “um défice externo anual elevado e uma dívida externa em crescimento explosivo”. Não dizem, porém, que apenas o aumento do investimento e, em particular, do investimento público é a condição necessária para inverter a preocupante tendência para o aumento galopante do desemprego que poderá, a curto prazo, superar 10 por cento da população activa, o que, num país como Portugal, com graves deficiências estruturais e uma economia caracterizada pela debilidade da indústria e pelo excessivo peso de actividades “rentistas”, se pode tornar insustentável. De resto, como se pode atacar a necessidade de aumentar o investimento público quando, em termos gerais, o investimento passou de uma diminuição de menos 7,6 por cento no último trimestre de 2008 para menos de 19,8 por cento no primeiro trimestre de 2009? Isto prova duas coisas: 1º que o investimento privado não é por si próprio suficiente para garantir a retoma da economia e do emprego; 2º que num período de retracção da procura os ilustres subscritores do manifesto permanecem rendidos à virtude sovina da poupança, virtude estéril que, como dizia Keynes, não cria emprego, mas consiste apenas na abstenção do consumo.

No entanto, como este argumento sobre as “virtudes” da estéril poupança é completamente absurdo nos tempos que correm, os ilustres luminares da sovinice incorporated tentam propor prioridades que apenas confirmam a sua má fé e cientificidade duvidosa. As “prioridades” são “o reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade e competitividade”, “impactos previsíveis no rendimento nacional e na dívida externa” e “melhoria da competitividade das empresas, em particular, das pequenas e médias empresas que representam a maior parcela do tecido produtivo do País e do emprego”. E terminam com o lema: “a melhoria da qualidade do investimento é um imperativo”.

Comecemos pelo lema. No momento actual, a “qualidade do investimento” não é uma questão prioritária. Pelo contrário, a insuficiência fundamental é quantitativa, já que o investimento registou uma quebra brutal. O problema da “qualidade do investimento” coloca-se a médio e a longo prazo, na aposta da qualificação e formação dos cidadãos, na construção de uma base produtiva e tecnológica que alguns dos subscritores do documento quando desempenhavam funções governamentais e dispunham de amplos fundos comunitários preteriram em favor de obras grandiloquentes, mas de reduzida qualidade e de precário impacto social e económico. São também frases fátuas e vazias de conteúdo os apelos “ao reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade e da competitividade”, pois tais frases não contribuem minimamente para resolver as carências sociais prementes actuais, bem como a “melhoria da competitividade das pequenas e médias empresas”, já que, estas, por si só, tendem, nas actuais condições de crise e de insuficiência da procura efectiva mais a perder do que a criar empregos, se não for relançada uma política coordenada de investimentos públicos que possa estimular a actividade económica e contribuir para o aumento do rendimento das famílias. No entanto, os representantes da sovinice incorporated partem do princípio pré-keynesiano de que o investimento, variável social, é uma função do somatório das poupanças individuais. Pelo contrário, é o nível de investimento que gera emprego, rendimento e, consequentemente, a repartição deste pela poupança e pelo consumo individual e colectivo. No entanto, as teses da economia neoclássica que contribuíram para a formação destas ilustres figuras impede-as de superar a sua inexorável propensão para a sovinice harpagnoniana.

Joaquim Jorge Veiguinha

É bom saber…

Sexta-feira, 19 de Junho, 2009

… que artigo de ontem de João Cardoso Rosas está a ser divulgado. Rigorosamente, nada de novo, mas, em todo o caso, bem actual e necessário. Sugestão de leitura complementar, para que os menos informados saibam da já razoável história destas coisas ideológicas do socialismo em Portugal, encontra-se aqui.

O “eduquês”: mistificação da realidade educativa? (2)

Quarta-feira, 17 de Junho, 2009

Há uns meses critiquei aqui a ausência de elementos empíricos que permitissem aos habituais críticos do “eduquês” afirmar o que afirmam sobre as atitudes e as práticas pedagógicas dos professores portugueses. Defendi que afirmar, como Nuno Crato e outros fazem, que o “eduquês” e o “construtivismo romântico” é a orientação hegemónica em Portugal não tem fundamento empírico sério. Nunca se avançam estudos de larga escala que comecem o dificil trabalho de construção da prova científica - e que justifiquem a “boa imprensa” de que este discurso sistematicamente goza (em altura de exames nacionais, basta abrir uma televisão ou um jornal). E sem o trabalho da prova, o anti-”eduquês” corre o risco de não passar de mais um discurso ideológico sobre a educação.

O relatório TALIS que a OCDE ontem divulgou tem dados particularmente interessantes sobre esta questão, e dá uma ajuda numa discussão que vive tantas vezes de afirmações sobre a realidade que têm a consistência da espuma. No capítulo 4, que versa sobre as práticas, crenças e atitudes dos professores nos 23 países onde o inqúerito decorreu, o relatório inquire os professores sobre as suas crenças sobre a relação pedagógica: quais devem ser os papéis do professor e do aluno?

Na primeira figura em baixo (Box 4.1) vemos as frases - pedia-se aos professores para afirmar o seu grau da concordância - a partir dos quais foram construídos os índices de crenças na transmissão directa do conhecimento e de crenças construtivistas. O quadro seguinte (Figure 4.2) mostra o perfil de cada país construído a partir das preferências dos professores por um ou outro “paradigma” pedagógico. Se o “eduquês” - essa amálgama de pedagogias construtivistas - fosse hegemónico em Portugal, como argumentam Nuno Crato et al., seria de esperar que este índice fosse o escolhido por uma maioria dos inquridos. Na verdade, o inverso ocorre: o cálculo dos ipsative scores (que mede a preferência relativa dos inquiridos por um índice em relação ao outro; explicação na última figura abaixo) mostra que o paradigma da transmissão directa do conhecimento é o preferido pelos professores (dos 23 países, Portugal é 5º país onde a preferência pelo paradigma construtivista é mais baixa).

 

Estes dados contribuem para a discussão em torno do “eduquês” e dos seus críticos; não a fecham, naturalmente. No entanto, permitem disciplinar a discussão, confrontando os defensores da tese de que o “eduquês” é uma espécie de vírus que contaminou a esmagadora maioria dos professores portugueses: se assim fosse, como explicar estes resultados, que apontam precisamente para a realidade oposta, isto é, a adesão maioritária a um paradigma tradicional de transmissão de conhecimento? 

hugo.santos.mendes@gmail.com

Nós e os Outros (XV) - (des)atinos norte-americanos

Terça-feira, 16 de Junho, 2009

Se acreditarmos que a Administração Obama veio para mudar muita coisa, e que o projecto reformador do Presidente norte-americano e da sua equipa é substantivo, teremos que ser bastante pacientes. Se não acreditássemos, bastaria assobiar para o lado!

A verdade é que a visão norte-americana do Mundo, apoiada por uma cultura secular (qb) de Ocidentalização singular, culturalmente auto-centrada e politicamente hegemónica, está instalada nos aparelhos burocráticos, maxime na Administração Federal, e perdurará o que Barack Obama denunciou: uma nação que não respeita os direitos humanos não se pode dar ao respeito dos Outros.

É, de facto, paradigmática da visão distorcida, e sobretudo erradamente pragmática, dos burocratas do Departamento de Estado, a (sua) leitura anual sobre o estado do Mundo em matéria de tráfico de seres humanos. Foi hoje mesmo divulgado pela titular, Hillary Clinton, o relatório de 2009, e nele se dá conta dos progressos, ou da falta deles, em matéria de prevenção do crime e reabilitação das vítimas, condenação dos agressores, políticas em curso, esforços jurídicos, etc.

Seria, efectivamente, instrumento útil, caso se apoiasse em metodologias rigorosas, escrutináveis e relevantes para a captação da complexidade das realidades sociais em que esse tipo de crime(s) ocorre. Lamentavelmente, acaba por ser um instrumento pernicioso, porquanto introduz uma lógica classificatória dos países em função do alegado progresso no combate ao tráfico (os tier, patamares de cumprimento dos standards legais) sem rigor analítico.

Portugal encontra-se classificado no 2º grupo (Tier 2), uma espécie de purgatório. Mas o mais supreendente é que o nosso País já se encontrou (entre 1998 e 2005) no Tier 1, quando não dispunha de uma política pública integrada para enfrentar este problema, quando não se conheciam vítimas, agressores, não havia condenações, reabilitação de vítimas, quando prevalecia a opacidade sobre esta realidade madrasta, a fraca cooperação policial internacional.

Agora, incumprimos! Agora, que reformámos os procedimentos (incluindo os penais), que possuímos sistemas de monitorização, que exportamos esse conhecimento para outros países, no âmbito de projectos pagos com dinheiros comunitários, que condenamos traficantes, apoiamos e protegemos as vítimas, mobilizamos recursos internacionais, e sobretudo agora que tornámos evidente a existência do fenómeno, e a nossa capacidade de o enfrentar, agora passámos para o patamar dos incumpridores.

Este tipo de rankings e afins são, ao seu jeito, uma forma exposta de não respeito pelos Outros. A ideia é a de que se não fazses como eu, fazes mal. Ora, salvo melhor informação e contraditório, nós estamos a fazer melhor em Portugal neste domínio do que os EUA fazem no seu própro País. A criticidade do tráfico, nomeadamente laboral e sexual, é bastante maior nesse País, o que até se percebe pela pressão, dimensão e organização existente. Não vale é chutar para baixo do tapete e sesatar a dizer isito e aquilo sobre os Outros, e ainda por cima (no que nos respeita, pelo menos) mal!

Os meus amigos e colegas dizem-me que estas coisas dos relatórios globais não têm grande importância. Talvez não matem, mas moem!

 

Nós e os Outros (XIV) - de rompante

Terça-feira, 9 de Junho, 2009

Nota: Este texto foi escrito em cima dos resultados, mas talvez por isso ficou preso e não editado. Erro do autor, pelo qual se penaliza.

Assim, de rompante, parece que ninguém conseguiu convencer a maioria dos eleitores a comprometerem-se com o seu futuro político europeu. Nem Presidente da República, nem Governo, nem Partidos. O que pensará um abstencionista quando ouve o Presidente falar em responsabilização? O que dirá quando olha os cartazes de apelo ao voto? O que comentará quando interpelado pelo líderes partidários sobre a importãncia da sua presença junto às urnas? Esse deveria ser o trabalho de investigação primordial a realizar: captar a primeira reacção, a primeira resposta, o primeiro pensamento do abstencionista.

Malgrado o facto - que também não se ouviu referir nos media - de terem votado mais 150 mil eleitores que nas últimas eleições, embora menos em termos percentuais - facto a merecer análise técnica! - foram mais os que podiam ter falado com o voto mas preferem calar-se ou falar com o vizinho ou o amigo sobre política. Ou, eventualmente, lá em casa com a família. E esta deveria ser a segunda linha de trabalho analítico a realizar: a importância do consenso familiar na formação da opinião política, depois traduzida no voto.

Porque a verdade é que todos falamos de política, mesmo quando declaramos não falar “disso” (pelo menos em público). Doença endémica da democracia, a abstenção maioritária (a vencedora) envergonha o conceito de participação (mas pode estar a mascarar uma profunda incomodidade dos eleitores com o sistema político, pelo menos…).

Durão Barroso lembrava hoje que há 20 anos alguns dos países que entraram nesta disputa eleitoral nem eleições livres tinham. É verdade, mas o problema é que ninguém se quer lembrar do que se lembra Barroso, ou do que se vão lembrando os “líderes”. Porque a crise é também essa: a “desliderança” colectivamente assumida, alimentada pelo voyeurismo comentarista da comunicação social que fragiliza as instituições democráticas por força da ridicularização da função política e do valor da representação.

Nota, também de rompante, para os resultados em Portugal: os votantes que protestaram (brancos e nulos) são agora a 6ª massa eleitoral mais relevante no País.

Quanto aos maiores, a resistência do CDS-PP espanta-me; a luta entre o BE e o PCP confirma o que amigos e camaradas meus denegavam há menos de 5 anos (a importância sistémica do BE); o PS com forte penalização eleitoral e o PPD/PSD vencedor com menos 3 mil votos dos obtidos em eleição homóloga, faz 4 anos, quando sofreu humilhante derrota (e em coligação).

Pode parecer uma pequena diatribe, mas não é: a pergunta certa não é perguntar porque perdeu o PS; a pergunta correcta é perguntar quais os motivos que levaram mais de um milhão de pessoas a votar no PPD/PSD? Alguém leu o manifesto eleitoral do PSD? Quantos desses percebem a política europeia desse Partido, e em particular dos deputados agora eleitos e que integrarão o PPE? Eu li, e confesso a minha perplexidade pela pobreza de ideias e desfazemento histórico do documento, feito de vacuidades políticas e oportunos chavões.

Convenhamos, sem excessiva parcialidade, que a proposta do PS tem assentamento no quadro político do PSE, e que este defende uma Europa em que, muito provavelmente, parte dos eleitores do PSD votariam “sem espinhas”. Por conseguinte, se o voto é de protesto contra o Governo, ainda que em eleições erradas para manifestar esse protesto, algo de profundamente perturbador se está a passar por aqui. E disso ninguém se pode orgulhar, nomeadamente Paulo Rangel que se diz orgulhoso com o que se passou. Ele próprio reconheceu que em outros países europeus não houve penalização aos Governos. Orgulha-se, portanto, de ter ocorrido algo que não deveria ter ocorrido por estar fora de contexto. Ficamos esclarecidos quanto à política de verdade.

Em termos europeus, e porque esse é o terreno em que se votou, como se esperava (pelas sondagens), manteremos um Parlamento dominado pelo PPE. Em plena crise, gerada pelo falhanço das políticas que agradavam sobretudo a esta “família” política, aqui vale a pena perceber que o revés é grande e o futuro não nos sorri.

A eventual eleição de um próximo Presidente da Comissão, apoiado por largo espectro, poderá ajudar? Pensando numa espécie de equilíbrio? Duvido, mas pago para ver!

Outubro em Junho

Terça-feira, 9 de Junho, 2009

Hugo Mendes escreve sobre as eleições: «A conclusão não é particularmente animadora para a esquerda», o que subestima o nacionalismo de muita esquerda. E mesmo para quem é cosmopolita por pensamento e convicção, não deixa de ser triste e preocupante ver como por cá só a CDU se referiu nesta campanha à questão bem real e decisiva da soberania (não por acaso, uma referência em que esta Esquerda se entende bem com a Direita que bem conhecemos).  Mais: escrever isso é perder de vista que a «animação» tem de ser ideológica, não técnica nem (apenas) edificante e responsável. Dizer o que se quer, o que se está disposto a pagar por isso, o que se pretende obter, etc., identificando essas escolhas com uma esquerda (socialista, social democrata, socialista democrática, o nome é o menos). A questão do imposto europeu servia perfeitamente, mas houve incapacidade de lidar com o ruído em volta. Como também acontece no post do País Relativo, que esquece que muitos mais foram os votos perdidos para a abstenção do que os conquistados pela extrema-direita ou por conservadores.

Para uma pequena revista de outros textos, ver aqui.

as europeias: derrota e troco

Segunda-feira, 8 de Junho, 2009

(1) Para mim hoje é dia de digerir a derrota política de ontem. O que acho sobre isso a nível europeu é simples: se o eleitorado não compreende a diferença entre os socialistas e a direita, isso há-de ser culpa nossa, não do eleitorado.  Entretanto, os partidos socialistas que, sendo governo, nestas eleições para o Parlamento Europeu apoiaram o inimigo - apoiaram Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia - foram os principais perdedores. Grandes exemplos: Reino Unido, Espanha, Portugal. E ainda faltará escrever a história do apoio do gabinete de Durão Barroso ao candidato Rangel em Portugal - para se perceber até que ponto podemos ser ingénuos.

(2) Mas há ainda qualquer coisa a dizer sobre a dimensão nacional destas eleições.  E não acho boa coisa tentar disfarçar a derrota. Pesada. A peregrina ideia de tapar a derrota nas urnas com uma sondagem desactualizada pela própria dinâmica dos acontecimentos - pode ser interessante como produto comunicacional, mas é uma insensatez política.

Então:

(3) A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do “povo de esquerda” que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.

(4) “Modernizar” Portugal não é compaginável com uma falta de empenho suficiente em fazer de nós um país mais justo, com mais equidade. O capital continua a valer mais do que o trabalho - não marginalmente mais, mas escandalosamente mais. E não haverá “progresso” nenhum que não passe por uma transformação radical e acelerada deste quadro. Essa bandeira é uma bandeira de esquerda que tem de ser assumida por quem queira governar o país à esquerda - mas essa bandeira só pode mobilizar uma base de apoio forte se acompanhar um programa de desenvolvimento que não nos condene às visões assistencialistas da esquerda.

(5) Para o principal partido da esquerda portuguesa, o PS, isto implica mais do que meramente insistir na necessidade de uma maioria absoluta. Até porque, agora, essa insistência pode virar o feitiço contra o feiticeiro. Para o PS isto implica: manter em cima da mesa as grandes orientações do governo nesta legislatura (até porque ninguém compreenderia, e ninguém compensaria, cambalhotas apressadas) e, ao mesmo tempo, abrir um novo tipo de diálogo com os sectores políticos que têm o apoio dos grupos sociais que, no entender do PS, deveriam ser os beneficiários da política que tem seguido no governo. Em suma: a “esquerda moderna” não pode ser uma espécie de terceira via, a “esquerda moderna” tem de ser uma nova proposta para revitalizar a esquerda. A esquerda toda. É que não há soldados a mais nesta batalha.

(Porfírio Silva escreve sobre estes temas também em Machina Speculatrix.)

Dia de reflexão

Segunda-feira, 8 de Junho, 2009

Depois dos posts sobre a campanha, notas para as próximas campanhas.