Nós e os Outros (XIV) - de rompante
9 de Junho, 2009 por Paulo MachadoNota: Este texto foi escrito em cima dos resultados, mas talvez por isso ficou preso e não editado. Erro do autor, pelo qual se penaliza.
Assim, de rompante, parece que ninguém conseguiu convencer a maioria dos eleitores a comprometerem-se com o seu futuro político europeu. Nem Presidente da República, nem Governo, nem Partidos. O que pensará um abstencionista quando ouve o Presidente falar em responsabilização? O que dirá quando olha os cartazes de apelo ao voto? O que comentará quando interpelado pelo líderes partidários sobre a importãncia da sua presença junto às urnas? Esse deveria ser o trabalho de investigação primordial a realizar: captar a primeira reacção, a primeira resposta, o primeiro pensamento do abstencionista.
Malgrado o facto - que também não se ouviu referir nos media - de terem votado mais 150 mil eleitores que nas últimas eleições, embora menos em termos percentuais - facto a merecer análise técnica! - foram mais os que podiam ter falado com o voto mas preferem calar-se ou falar com o vizinho ou o amigo sobre política. Ou, eventualmente, lá em casa com a família. E esta deveria ser a segunda linha de trabalho analítico a realizar: a importância do consenso familiar na formação da opinião política, depois traduzida no voto.
Porque a verdade é que todos falamos de política, mesmo quando declaramos não falar “disso” (pelo menos em público). Doença endémica da democracia, a abstenção maioritária (a vencedora) envergonha o conceito de participação (mas pode estar a mascarar uma profunda incomodidade dos eleitores com o sistema político, pelo menos…).
Durão Barroso lembrava hoje que há 20 anos alguns dos países que entraram nesta disputa eleitoral nem eleições livres tinham. É verdade, mas o problema é que ninguém se quer lembrar do que se lembra Barroso, ou do que se vão lembrando os “líderes”. Porque a crise é também essa: a “desliderança” colectivamente assumida, alimentada pelo voyeurismo comentarista da comunicação social que fragiliza as instituições democráticas por força da ridicularização da função política e do valor da representação.
Nota, também de rompante, para os resultados em Portugal: os votantes que protestaram (brancos e nulos) são agora a 6ª massa eleitoral mais relevante no País.
Quanto aos maiores, a resistência do CDS-PP espanta-me; a luta entre o BE e o PCP confirma o que amigos e camaradas meus denegavam há menos de 5 anos (a importância sistémica do BE); o PS com forte penalização eleitoral e o PPD/PSD vencedor com menos 3 mil votos dos obtidos em eleição homóloga, faz 4 anos, quando sofreu humilhante derrota (e em coligação).
Pode parecer uma pequena diatribe, mas não é: a pergunta certa não é perguntar porque perdeu o PS; a pergunta correcta é perguntar quais os motivos que levaram mais de um milhão de pessoas a votar no PPD/PSD? Alguém leu o manifesto eleitoral do PSD? Quantos desses percebem a política europeia desse Partido, e em particular dos deputados agora eleitos e que integrarão o PPE? Eu li, e confesso a minha perplexidade pela pobreza de ideias e desfazemento histórico do documento, feito de vacuidades políticas e oportunos chavões.
Convenhamos, sem excessiva parcialidade, que a proposta do PS tem assentamento no quadro político do PSE, e que este defende uma Europa em que, muito provavelmente, parte dos eleitores do PSD votariam “sem espinhas”. Por conseguinte, se o voto é de protesto contra o Governo, ainda que em eleições erradas para manifestar esse protesto, algo de profundamente perturbador se está a passar por aqui. E disso ninguém se pode orgulhar, nomeadamente Paulo Rangel que se diz orgulhoso com o que se passou. Ele próprio reconheceu que em outros países europeus não houve penalização aos Governos. Orgulha-se, portanto, de ter ocorrido algo que não deveria ter ocorrido por estar fora de contexto. Ficamos esclarecidos quanto à política de verdade.
Em termos europeus, e porque esse é o terreno em que se votou, como se esperava (pelas sondagens), manteremos um Parlamento dominado pelo PPE. Em plena crise, gerada pelo falhanço das políticas que agradavam sobretudo a esta “família” política, aqui vale a pena perceber que o revés é grande e o futuro não nos sorri.
A eventual eleição de um próximo Presidente da Comissão, apoiado por largo espectro, poderá ajudar? Pensando numa espécie de equilíbrio? Duvido, mas pago para ver!





